Fé Católica

Na Amazônia, Diácono seminarista Leonardo encontra uma Igreja ‘viva, participativa e desejosa de crescer na fé’

Na Amazônia, Diácono seminarista Leonardo encontra uma Igreja ‘viva, participativa e desejosa de crescer na fé’

Futuro sacerdote está em missão na Diocese de São Gabriel da Cachoeira (AM) até o final deste mês e relata que o testemunho de fé dos católicos supera as barreiras geográficas e as dificuldades para deslocamentos

Fotos: Arquivo pessoal

Ao longo deste mês, o site do jornal O SÃO PAULO tem publicado uma série de reportagens com os diáconos seminaristas da Arquidiocese de São Paulo que estão em missão em dioceses da região amazônica. São eles: Leonardo de Oliveira Leopoldo, Vinícius Pinheiro Nunes, Victor Silva Natali e Fabiano Henrique da Silva.

Os quatro foram ordenados no primeiro grau do sacramento da Ordem em 13 de dezembro de 2025, na Catedral da Sé, pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano, com vistas à futura ordenação sacerdotal. Na missão iniciada em julho e que será concluída neste mês, eles têm tido contato com realidades pastorais diferentes das que geralmente encontram em São Paulo.

Nesta reportagem, o destaque é para o Diácono seminarista Leonardo de Oliveira Leopoldo, 31, que está em missão na Diocese de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, no Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

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UMA DIOCESE EM UM VASTO TERRITÓRIO

Composta por 12 paróquias e mais de 400 comunidades, a Diocese de São Gabriel da Cachoeira está localizada no extremo noroeste do Brasil, a cerca de 850 quilômetros de Manaus, capital do Amazonas.

“É uma Diocese marcada por um território imenso, com dimensões que se aproximam das do estado de São Paulo, e por uma realidade geográfica, cultural e pastoral muito particular. Situada na região da bacia do Rio Negro, faz fronteira com a Colômbia e a Venezuela e reúne uma grande diversidade de povos e culturas”, detalhou Leonardo, explicando ainda que no território diocesano convivem 24 povos originários que falam 18 línguas diferentes.

“É uma das regiões de maior presença indígena do Brasil, com cerca de 94% da população pertencente a povos indígenas. Diante dessa realidade, a ação pastoral da Igreja precisa necessariamente ser missionária, itinerante e profundamente inserida na cultura dos povos”, destacou.

Desde 2024, Dom Raimundo Vanthuy Neto é o bispo diocesano. A história da presença da Igreja nessa região está ligada à missão salesiana: “A Prelazia do Rio Negro foi erigida em 30 de outubro de 1925, pelo Papa Pio XI, e confiada aos cuidados dos Salesianos. Em 30 de outubro de 1980, foi elevada à dignidade de diocese por São João Paulo II, com a denominação de Diocese de Rio Negro, e, em 21 de outubro de 1981, passou a se chamar Diocese de São Gabriel da Cachoeira”, detalhou o Diácono seminarista.

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OS TRAÇOS DE UMA IGREJA MISSIONÁRIA

Leonardo sublinhou que um dos aspectos que mais chamaram sua atenção na Diocese é a itinerância missionária: “Padres, diáconos, religiosos, religiosas, leigos e outros missionários percorrem longas distâncias de barco para chegar às comunidades, enfrentando viagens que podem durar muitas horas, além de cachoeiras, fortes chuvas, ventos e o intenso calor da região. A distância faz com que a presença da Igreja seja, muitas vezes, marcada por visitas periódicas, o que exige uma grande participação e corresponsabilidade dos próprios leigos e das lideranças das comunidades”.

O futuro sacerdote destacou que o maior desafio pastoral da Diocese de São Gabriel da Cachoeira está em atender bem o povo de Deus que vive neste extenso território, tendo um número reduzido de padres. Nesse contexto, “a formação dos catequistas, das lideranças e dos ministros leigos é indispensável. A vitalidade da Igreja nessa região depende muito de uma Igreja verdadeiramente sinodal e missionária, capaz de confiar responsabilidades aos próprios povos e comunidades”.

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“Os catequistas têm um papel fundamental nesse processo, pois são eles que permanecem mais próximos das comunidades e acompanham aqueles que se preparam para os sacramentos”, sublinhou o Diácono seminarista, relatando que muitas vezes viu catequistas e catequizandos conversando sobre os sacramentos e a própria iniciação à vida cristã. “Foi muito bonito perceber que essa preparação não se resume a transmitir conteúdos, mas busca ajudar as pessoas a compreenderem e assumirem a fé dentro de sua própria realidade cultural e comunitária”.

Apesar das grandes distâncias e das dificuldades para acessar as localidades, Leonardo assegurou que há entre os fiéis um forte desejo de celebrar e viver a fé: “Mesmo diante das limitações geográficas e da escassez de ministros ordenados, a Igreja procura estar presente e próxima. É uma pastoral que exige paciência, disponibilidade e espírito missionário, mas que também revela uma comunidade viva, participativa e desejosa de crescer na fé”.

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SOLIDARIEDADE, ACOLHIDA E PARTILHA

Leonardo contou, ainda, que nas visitas que tem feito às comunidades depara-se com “a cultura própria dos diversos povos originários, com seus costumes, seu modo de viver, de se relacionar e de se alimentar. Em tudo isso, chama muito a atenção a força da solidariedade, da acolhida e da partilha”.

Ele relatou que sempre tem sido bem recebido e nota o carinho e cuidado das pessoas no preparo para a celebração e a grande expectativa e alegria quando veem a chegada dele e de Dom Edson Damian, Bispo Emérito de São Gabriel da Cachoeira, que nestes dois meses tem presidido a Eucaristia, administrado os sacramentos e visitado as 47 comunidades da Paróquia São João Bosco, no distrito de Pari-Cachoeira, atualmente sem pároco, mas que conta com a presença permanente das Irmãs Salesianas.

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“Muitas vezes, a própria preparação da celebração já era uma expressão de fé. Depois de cada celebração, as famílias se reuniam para partilhar o alimento. Cada uma trazia aquilo que tinha e que faz parte de sua cultura e de sua vida cotidiana: beiju, quinhapira, mingau, açaí, farinha, além de diferentes tipos de peixes e animais de caça. Nesses momentos, percebi que a mesa também se torna lugar de evangelização, de encontro e de comunhão”.

Leonardo também enfatizou que a acolhida que é feita aos missionários vai além de uma postura de hospitalidade: “Transforma-se em uma verdadeira celebração de fé e esperança. Essa experiência me fez perceber que o Evangelho já encontra, na vida e na cultura desses povos, muitos valores profundamente cristãos: a comunhão, a solidariedade, o cuidado com o outro e a capacidade de partilhar aquilo que se tem”.

Ainda segundo o Diácono seminarista, vivenciar esta missão o tem ajudado a compreender de maneira mais concreta a expressão semina Verbi, as “sementes do Verbo”.

“Deus já está presente e atuante na história e na cultura desses povos, e encontramos nessas realidades sementes de verdade, de bondade, de solidariedade e de abertura ao transcendente. O missionário não chega para começar tudo do zero, mas para reconhecer essas sementes, valorizá-las, discerni-las à luz do Evangelho e, a partir delas, anunciar Jesus Cristo. Levo comigo a certeza de que, muitas vezes, nós chegamos como missionários pensando que temos algo a oferecer, mas descobrimos que também temos muito a aprender e receber daqueles que encontramos pelo caminho”, sublinhou.

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BEM FORMAR AS LIDERANÇAS PASTORAIS

Da sede da Diocese de São Gabriel da Cachoeira até a matriz da Paróquia São João Bosco, o Diácono seminarista precisou viajar de barco pelo Rio Negro e seus afluentes durante três dias e duas noites. Ao recordar este fato e a grande distância entre as 47 comunidades, ele sublinhou que é fundamental que a Igreja intensifique a formação e o acompanhamento das lideranças locais.

“Não se trata simplesmente de criar novas pastorais, mas de formar pessoas capazes de assumir a missão em suas próprias comunidades, respeitando suas culturas, línguas e modos de viver a fé. Acredito que esse é um dos grandes desafios e, ao mesmo tempo, uma das grandes riquezas da Igreja na Amazônia: uma Igreja que precisa estar próxima, formar lideranças e confiar aos próprios povos a missão de anunciar o Evangelho”.

Ele apontou, ainda, para o papel central que os catequistas assumem neste contexto e sublinhou que quando estão bem preparados, “conseguem transmitir a fé na língua própria de cada povo, favorecendo uma compreensão mais profunda de quem é Jesus Cristo, de seu Evangelho, da Igreja e dos sacramentos”.

Outro trabalho evangelizador relevante na Paróquia São João Bosco é o da Infância e Adolescência Missionária (IAM): “Por meio de encontros, partilhas e atividades lúdicas, as crianças e adolescentes descobrem que também são missionários em suas casas, comunidades e vilas. E essa participação acaba envolvendo também os pais e familiares na vida da comunidade e da Paróquia”.

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COLOCAR A VIDA A SERVIÇO DE DEUS E DO POVO

Segundo o Diácono seminarista, esta experiência de missão na Amazônia tem lhe deixado muitas lições para quando for padre, uma delas a de que “o ministério sacerdotal precisa estar profundamente enraizado na realidade concreta das pessoas. Levo comigo um olhar mais atento para aqueles que muitas vezes vivem às margens, uma disposição maior para escutar e aprender com diferentes culturas e a certeza de que a Igreja é chamada a estar presente onde as pessoas estão, caminhando com elas e anunciando o Evangelho com respeito, proximidade e caridade.

Além disso, o contato que teve com as diversas etnias na Amazônia lhe trouxe algumas convicções, entre as quais a de que é necessário que a Igreja promova ambientes, comunidades e realidades diversas, “nas quais os pobres e os pequenos sejam respeitados e tenham sua dignidade reconhecida e promovida, e em que as diferentes culturas possam ser preservadas, valorizadas e não sejam simplesmente absorvidas pela cultura dominante”.

Por fim, o Diácono seminarista Leonardo avalia que ter vivenciado esta missão lhe trouxe a certeza de que “ser sacerdote é, antes de tudo, colocar a própria vida a serviço de Deus e do seu povo, especialmente dos mais pobres, dos pequenos e daqueles que mais precisam de cuidado e esperança”.

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Diácono seminarista Leonardo e Dom Edson Damian

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