Projeto Dandara viabiliza moradia digna a famílias na zona Sudeste da capital paulista

Projeto Dandara viabiliza moradia digna a famílias na zona Sudeste da capital paulista

Do alto do cruzamento das avenidas do Cursino e dos Ourives, na zona Sudeste da capital paulista, as cores bege e azul de um prédio com 13 andares chamam a atenção em meio a outros edifícios de menor porte e o aglomerado de casas do Jardim São Savério, Jardim Celeste e Parque Bristol. 

Em uma dessas modestas casas, à beira de um córrego sujo e mal-cheiroso, vive Antônia Ferreira de Souza: “Tem dias que eu fico com medo de que algo aconteça. Eu moro com meu filho. Na chuvarada de dias atrás, eu pensei que tudo ia desabar, até uma árvore caiu em uma das ruas da comunidade”, recorda, já na espera de se mudar para um dos 50 apartamentos do novo prédio: “Vai ser bom viver em lugar mais tranquilo e sem perigo”. 

Projeto Dandara viabiliza moradia digna a famílias na zona Sudeste da capital paulista - Jornal O São Paulo

UMA HISTÓRICA LUTA POR MORADIA 

O prédio do Projeto Dandara, localizado no final da Rua Mário Quintana, que será oficialmente inaugurado ainda neste semestre, é fruto das mobilizações da Associação dos Movimentos de Moradia da Região Sudeste, da União dos Movimentos de Moradia de São Paulo e da Pastoral da Moradia da Região Episcopal Ipiranga. 

Criada na década de 1980, a Associação já viabilizou a construção de mais de mil unidades habitacionais, entre casas e apartamentos, em um trabalho que envolve mapear terrenos que podem ser desapropriados para que se construam as moradias, cadastrar as famílias e fazer a interlocução com o poder público para que financie as construções. 

Maria Barbosa Rastele, 72, está na Associação desde o início e hoje é a responsável pelo movimento na área Savério/Bristol. No início dos anos 1990, ela atuou na construção das 200 casas do conjunto habitacional Celeste I, feitas em mutirão e com o apoio da Prefeitura. Em uma delas, Maria mora até hoje. Ao longo das décadas, o Movimento lutou pela construção de mais habitações, tendo com alguns governos uma interlocução mais facilitada, em outros precisando recorrer à Justiça para que as obras saíssem do papel. 

Paralelamente à construção do Celeste I, os participantes, em sua maioria católicos, construíram a Capela Nossa Senhora da Moradia, atualmente vinculada à Paróquia Nossa Senhora Mãe de Jesus, no Decanato Santo André da Região Ipiranga. “A gente fazia as nossas casas e ia construindo a capela também. Dom Celso [Dom Antônio Celso de Queirós, então Bispo Auxiliar da Arquidiocese na Região Ipiranga] é quem inaugurou e passaram a acontecer missas, casamentos e batizados na igreja”, detalhou Maria Barbosa ao O SÃO PAULO

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A CONSTRUÇÃO DO DANDARA 

A construção do prédio do Projeto Dandara é parte do programa Pode Entrar, da Prefeitura de São Paulo, criado para facilitar o acesso ao sistema habitacional do município, por meio de mecanismos de incentivo à produção de empreendimentos habitacionais de interesse social. 

Diferentemente de outras unidades do Pode Entrar, no Projeto Dandara a construção está sendo feita em autogestão: “Foi a Associação que contratou os técnicos para a construção, cuidou da parte do jurídica, a partir das verbas que recebeu do poder público. Toda a gerência é feita pela Associação”, detalhou Maria Barbosa. 

Solange Cervera Faria, integrante da Associação e da Pastoral da Moradia da Região Ipiranga, explicou à reportagem que o terreno onde foi construído o prédio pertence à Prefeitura e era uma sobra de área de outros projetos habitacionais existentes no Jardim Celeste. 

As famílias contempladas, segundo Solange, vivem na Região Sudeste da cidade em habitações subnormais, como favelas ou cortiços, ou pagam aluguel. A escolha de quem vai morar no prédio seguiu um critério de pontuação. “Essas pessoas são do movimento de moradia e vão somando pontos conforme participam das nossas reuniões, formações e encontros. Quando há a conquista de um novo terreno e o começo de um projeto, a escolha de quem será selecionado é feita com base nesta pontuação”, detalhou Solange. 

Os contemplados começarão a pagar pelos apartamentos, que têm 58 metros quadrados, quando para lá se mudarem, com parcelas em um valor equivalente a 15% ou 20% de sua renda total. 

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MAIS QUALIDADE DE VIDA E MENOS DÍVIDAS 

Para assegurar a boa conservação do prédio, desde o ano passado cinco famílias já estão vivendo no Dandara, como é o caso de Eliene Sampaio da Silva: “Antes de me mudar para cá, eu pagava quase R$ 1.000 de aluguel. Meu salário ia praticamente todo nisso. Eu não via a hora de conseguir meu apartamento. Agora a vida está bem melhor, sobra um pouquinho a mais de dinheiro até para comprar alguns remédios que eu não consigo na rede pública”. 

Maria Luiza Ferreira também já está vivendo no Dandara com o esposo e o filho: “Morei de aluguel em muita casa ruim. Daí a gente mudava para outra, passava um tempo mudava de novo. Hoje, graças a Deus, estamos bem e lutando para que o resto do pessoal possa se mudar para cá logo. Eu estou há 21 anos no movimento, aguardando para ter minha casa, mas não desisti, porque sabia que se desistisse não ia ter condições de comprar uma, nem pagando a vista, nem financiando”. 

Moradora da região há 15 anos, Angela Maria Avelino dos Santos até conseguiu comprar uma pequena casa na comunidade, mas, segundo ela, nada comparável ao conforto que terá agora: “Aqui vou poder viver em uma moradia digna. Será maravilhoso entrar no meu apartamento, morar no que é meu, sem aquela angústia de chegar alguém e dizer ‘eu quero a casa de volta’, ‘eu quero o terreno’, ‘vocês vão ter de desocupar’”. 

Já para Adileid Costa, que vive com o esposo e dois filhos em uma pequena casa na região, a mudança para o Dandara fará diferença na renda familiar: “A gente vai ter um pouquinho mais de tranquilidade na hora de pagar as contas, porque hoje temos que contar moeda para tudo: para água, luz, aluguel e comida”. 

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MOBILIZAÇÃO E ESPERANÇA 

Maria Barbosa lamenta que a maioria das pessoas deixem de se engajar nas ações do movimento de moradia após conquistar suas casas: “Muitas vezes, a gente convida as pessoas para manifestações, reuniões, mas muitas sempre dão um jeitinho para dizer que não vão. É um erro delas, pois não é porque já conseguiram uma casa que está tudo resolvido. A gente precisa não só de teto, mas também de saúde, educação e tantos outros serviços públicos, e temos de lutar por isso”. 

Ela enfatiza que nenhuma pessoa da coordenação do movimento recebe salário ou qualquer bonificação financeira: “Todo mundo trabalha mesmo pela boa causa, e não é fácil. Às vezes, você está na rua em uma manifestação e não tem dinheiro para comprar nem uma garrafinha de água. Então, é sempre um ajudando o outro”. 

Maria Barbosa fala com muito orgulho de sua pertença à Pastoral da Moradia: “A Pastoral fomenta o movimento. Ela dá ferramenta para a gente seguir a vida”. Ela diz ter esperança de que o destaque a essa temática na Campanha da Fraternidade ajude a dar mais visibilidade à Pastoral e à luta por moradia digna, e ressalta que o cristão não pode ser indiferente ao ver um irmão sem lar: “Às vezes, eu vou para o centro, e na Sé vejo tanto moço ‘jogado’ no chão. Não podemos esquecer o lema da CF 2026 – ‘Ele veio morar entre nós’. Jesus veio morar com o mendigo, comigo, com você, enfim, no próximo Ele está do nosso lado”. 

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