“Epifania” é a manifestação de Jesus como o Messias de Israel, Filho de Deus e Salvador do mundo. A esse respeito, diz o seguinte o Catecismo da Igreja Católica:
“A festa da Epifania do Senhor celebra três mistérios:
A adoração dos Magos, quando Cristo se manifestou aos gentios (porque os Magos representam as primícias das nações);
O batismo de Cristo no Jordão, quando a voz do Pai e a descida do Espírito Santo manifestaram que aquele era o Filho de Deus;
O primeiro milagre realizado nas bodas de Caná, onde Cristo manifestou a sua glória transformando a água em vinho.
Por isso esta festa é chamada Epifania, que significa manifestação, porque nestes três acontecimentos Cristo Senhor nosso se manifestou ao mundo de modo especial.»
(Catechismus Romanus, Pars II, cap. VI, q. 22)”
Antes de tudo, no estudo realmente sério do assunto que dá título a este artigo, precisamos reconhecer que não existe absoluta certeza quanto à data historicamente precisa do Nascimento de Jesus Cristo. Os evangelistas não a mencionam; S. Lucas informa que pastores estavam em vigília noturna, guardando o rebanho nos campos, atividades mais comuns na primavera e verão do Hemisfério Norte (mas de modo algum totalmente ausentes no outono/inverno, como querem alguns). Bispos dos primeiros séculos fizeram numerosas especulações: alguns aderiram ao 25 e/ou 28 de março; outros, ao 19 de abril ou ao 20 de maio.
O próprio ano do Nascimento de Jesus é também motivo de debates. Mateus diz que Jesus nasceu no reinado de Herodes, o Grande, que morreu no ano 4 a.C. E Cristo, evidentemente, não poderia ter nascido “antes de Cristo”. Ocorre que, no século VI de nossa era, o monge Dionísio Exíguo foi incumbido de empreender cálculos para determinar o início da Era Cristã, e a fixou em 754 após a fundação de Roma. Ele reconhecidamente se equivocou. Além disso, não lhe ocorreu a necessidade de fixar um ano zero entre -1 a.C e + 1 d.C.

Até aqui, preparamos um singelo “pano de fundo” para a introdução do tema, sem apresentar novidade alguma. A novidade – que já não é tão nova assim, pois se baseia numa descoberta que já completou mais de uma década –, é a contestação daquilo que há tempos vinha sendo pacificamente aceito como realidade pela maioria dos historiadores e pesquisadores: a afirmação de que a data de celebração do Natal havia sido essa escolha religiosa, descrita acima, baseada em motivações desvinculadas da preocupação com a precisão histórica e sem ligação com a data real do Nascimento de Jesus, a qual, por fim, ninguém teria condições de poder determinar.
Se começamos dizendo que o estudo sério precisa reconhecer que não há certeza quanto à data historicamente correta, igualmente é preciso saber e reconhecer que existe a possibilidade de, nos meios acadêmicos, a maioria ter feito escolhas equivocadas, ao menos até recentemente.
O fato histórico concreto é que hoje – em boa parte graças aos documentos de Qumran(1) –, estamos em condições de repensar a questão com precisão inédita: Jesus pode, sim, ter nascido realmente no dia 25 de dezembro. Uma descoberta extraordinária, que não recebeu ainda a devida atenção. Mesmo assim, estamos falando de uma proposição historicamente honesta e absolutamente isenta de quiasquer interesses particulares, dado que a devemos primeiramente a um docente judeu da Universidade Hebraica de Jerusalém.
Outra explicação plausível faz depender a data do Nascimento de Jesus e a data de sua Encarnação (Concepção), que por sua vez se relacionava com a data de sua Morte. Num tratado anônimo sobre solstícios e equinócios afirma-se que “Nosso Senhor foi concebido às 8 das kalendas de abril do mês de março (25 de março), que é o dia da Paixão do Senhor e o da sua Concepção, pois foi concebido no mesmo dia em que morreu”(3). Teria, então, nascido aos 25 de dezembro. Na tradição oriental, apoiando-se em outros calendários, a Paixão e a Encarnação do Senhor celebram-se aos 6 de abril, data que coincide com a celebração do Nascimento aos 6 de janeiro.
A relação entre Paixão e Encarnação é uma ideia que está em consonância com a mentalidade antiga e medieval, que admirava a perfeição do Universo como um todo, onde as grandes intervenções de Deus estariam vinculadas entre si. Trata-se de uma concepção que também encontra suas raízes no judaísmo, onde criação e salvação se relacionavam com o mês de nisan. A arte cristã refletiu abundantemente essa mesma ideia ao longo da História, por exemplo, ao retratar, na Anunciação à Virgem, assim como em diversos outros ícones que retratam a divina Infância, o Menino Jesus descendo do Céu com a cruz. Assim, mais do que possível, é provável que os cristãos vinculassem a Redenção operada por Cristo com a sua Concepção, e esta determinasse a data do Nascimento. Como disse Joseph Ratzinger, o agora Papa emérito Bento XVI: “O mais decisivo foi a relação existente entre a Criação e a Cruz, entre a Criação e a Concepção de Cristo”(4).
Vemos, então, que a explicação da cristianização da data de 25 de dezembro, visando a conversão dos pagãos – conforme nós mesmos divulgamos por aqui –, não é uma certeza acadêmica-histórica, mas apenas a versão mais difundida e aceita.
Retomando a partir daqui a proposição da data do Nascimento do Senhor como sendo historicamente o 25 de dezembro, apresentamos a sua explanação, talvez algo complexa, mas fascinante.
Se Jesus nasceu aos 25 de dezembro, então, como é óbvio, sua Concepção ocorreu 9 meses antes. Com efeito, os calendários cristãos datam a Anunciação de S. Gabriel Arcanjo a Maria Santíssima em 25 de março. Sabemos, pelo Evangelho segundo S. Lucas, que, precisamente seis meses antes, João o Precursor, que será chamado o Batista, tinha sido concebido por Isabel. A Igreja Católica não tem uma Festa litúrgica para essa concepção, mas a Igreja do Oriente celebra-a solenemente entre os dias 23 e 25 de setembro; seis meses antes da Anunciação a Maria.
Estaríamos diante de uma sucessão de datas lógica e plausível, porém baseada em tradições não verificáveis, não em acontecimentos localizáveis no tempo. Será? Era nisso que se acreditava quase que unanimemente, até há pouco tempo. A realidade, porém, pode ser outra.
Para entender o que se propõe, devemos partir da concepção do Batista: o Evangelho segundo S. Lucas se abre com a história do velho casal – Zacarias e Isabel – já resignado à esterilidade, que era considerada uma das piores desgraças em Israel naquele tempo. Zacarias pertencia à casta sacerdotal e, um dia, quando estava de serviço no Templo de Jerusalém, teve a visão de S. Gabriel (o mesmo anjo que aparecerá seis meses mais tarde a Maria, em Nazaré), o qual lhe anunciou que, não obstante a idade avançada, ele e a mulher teriam um filho. Deveriam lhe dar o nome João, e ele seria grande “diante do Senhor”.
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| Prof. Shemarjahu Talmon (1920-2010) |
Já se sabia que a classe de Zacarias (a de Abias) era a oitava no elenco oficial; mas não se sabia quando é que ocorriam esses seus turnos de serviço. Ocorre que este enigma foi desvendado pelo professor Shemarjahu Talmon, docente na Universidade Hebraica de Jerusalém, utilizando investigações desenvolvidas também por outros especialistas e trabalhando, sobretudo, com textos encontrados na biblioteca essênia de Qumran. O estudioso, assim, conseguiu precisar em que ordem cronológica se sucediam as 24 classes sacerdotais. A de Abias prestava serviço litúrgico no Templo duas vezes por ano, tal como as outras, e uma destas era na última semana de setembro. Portanto, era verosímil a tradição dos cristãos orientais que põe entre os dias 23 e 25 de setembro a data do anúncio a Zacarias. Verosimilhança esta que aproximou-se da certeza quando estudiosos, estimulados pela descoberta do Prof. Talmon, reconstruíram a “fileira” daquela tradição, chegando à conclusão de que esta provinha diretamente da Igreja primitiva, judaico-cristã, de Jerusalém. Essa memória das Igrejas do Oriente é tão firme quanto antiga, tal como se confirma em muitos outros casos.
Vemos, assim, como aquilo que parecia mítico tem fundamento histórico; uma cadeia de acontecimentos que se estende ao longo de 15 meses: em setembro, o anúncio a Zacarias, e no dia seguinte a concepção de João; seis meses depois, em março, o Anúncio a Maria; três meses depois, em junho, o nascimento de João; seis meses depois, o Nascimento de Jesus. Com este último acontecimento, chegamos precisamente ao dia 25 de dezembro; uma data que neste caso não foi, de modo algum, fixado ao acaso ou com objetivos secundários.
É, portanto, no mínimo uma possibilidade concreta e real que o Natal de Nosso Senhor tenha realmente ocorrido, como fato histórico e cientificamente demonstrável, no dia 25 de dezembro.
A Fraternidade Laical São Próspero roga a Deus por um santo e abençoado Natal, repleto de frutos e realizações, a todos os nossos leitores e assinantes!
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Notas:
(2)
Sexto Júlio Africano (nascido entre 160 e 170dC), em sua Chronographiae (escrita aprox. em 221), é o primeiro autor cristão conhecido que calcula e afirma que a Encarnação (Concepção, não o Nascimento) de Cristo ocorreu no dia 25 de março. A partir dessa data, ele deduz o Nascimento exatamente 9 meses depois: 25 de dezembro. O texto conservado fragmentariamente por Jorge Sincelo (séc. IX) traz:«Ἡ κυριακὴ ἡμέρα τοῦ κόσμου ἦν ἡ κεʹ Μαρτίου, ἣν καὶ τὴν σύλληψιν τοῦ Κυρίου γεγονέναι λέγουσιν… καὶ τὴν γέννησιν αὐτοῦ τὴν κεʹ Δεκεμβρίου.»
(Wallraff / Roberto / Pinggéra (ed.), Julius Africanus: Cestoi, Berlím 2011.)
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Fontes:
• VARO, Francisco et al. 54 perguntas sobre Jesus Cristo. • São Paulo: Gabinete de Informação do Opus Dei, 2015.
• Corriere della Sera, 9 de Julho de 2003, com o apostolado Veritatis Splendor, disp. em:
veritatis.com.br/doutrina/deus/970-jesus-nasceu-mesmo-num-dia-25-de-dezembro
• SALLES, Catherine. Revista ‘História Viva’ virtual, ed. Duetto disp em:
www2.uol.com.br/historiaviva/artigos/jesus_nasceu_em_dezembro.html
www.ofielcatolico.com.br






