Fé Católica

As intuições do primeiro discurso do Papa Leão XIV que transparecem no primeiro ano de pontificado

As intuições do primeiro discurso do Papa Leão XIV que transparecem no primeiro ano de pontificado

Neste 8 de maio, completa-se um ano da eleição do Papa Leão XIV. No início da tarde daquele dia, a fumaça branca anunciava que o Colégio de Cardeais havia escolhido o cardeal norte-americano Robert Francis Prevost como 267º pontífice. Vários gestos e sinais de suas inspirações para a Igreja e o mundo já estavam presentes em seu primeiro discurso da sacada da Basílica de São Pedro. E nesse primeiro ano eles já puderam ser vistos como iluminação e prática na vida da Igreja.

A paz de Cristo Ressuscitado

Após o anúncio do nome do cardeal Robert Francis Prevost, até então, prefeito do Dicastério para os Bispos para suceder ao Papa Francisco, falecido no dia 21 de abril, a primeira saudação já apresentou sinais que puderam ser vistos nos meses seguintes.

“A paz esteja com todos vocês!”. A saudação do Cristo Ressuscitado levada pelo Papa à Praça São Pedro e a todo o mundo apontou para uma paz “desarmada e desarmante, humilde e perseverante”.

Leão voltou a falar da paz em várias oportunidades e, diante dos diversos conflitos espalhados por todo o mundo, convidou para momentos de oração pela paz. Vatican News contabilizou mais de 400 vezes que o Papa citou o termo em seus pronunciamentos neste primeiro ano.

Mais recentemente, o Papa inclusive sofreu ataques por destacar a posição da Igreja contra as guerras e em favor do diálogo diplomático.

Em edição especial do CNBB Podcast, na 62ª Assembleia Geral, o primeiro bispo nomeado para o Brasil por Leão XIV, dom Clésio Facco, comentou sobre a busca por diálogo e paz promovida pelo pontífice:

“No contexto do mundo, o Papa deseja que haja diálogo, e ele luta por isso. Ele quer fazer com que os nossos governantes entendam da importância da paz. A paz verdadeira, como sinal da presença de Deus, não uma paz que seja ausência de guerra. A paz verdadeira me torna uma pessoa desarmada, até no dia a dia, na convivência eu sou alguém de paz, de bem, sou próximo do outro”, afirmou.

Continuidade de Francisco

“Permitam-me prosseguir com essa mesma bênção”. Lembrando da bênção A cidade e o mundo de Páscoa, a última do Papa Francisco, o Papa Leão XIV marcou o traço da continuidade entre os dois pontificados, comprometidos a oferecer o amor de Deus e a luz do Cristo, que “nos precede” e do qual “somos discípulos”, a todos.

“O mundo precisa de sua luz. A humanidade precisa dele como ponte para ser alcançada por Deus e seu amor. Ajudai-nos também vós, e depois uns aos outros, a construir pontes, com o diálogo, com o encontro, unindo-nos a todos para sermos um só povo, sempre em paz”.

E a continuidade também se manifestou nos processos vividos pela Igreja: a celebração do Jubileu 2025, as mudanças na Cúria, a implementação das indicações do Sínodo pela Sinodalidade e, mais recentemente, no convite a recepcionar novamente a exortação apostólica a alegria do Evangelhodo Papa Francisco, documento que “recentra tudo no querigma como coração da identidade cristã e eclesial”, sendo reconhecido como um verdadeiro “sopro novo” capaz de impulsionar processos de conversão pastoral e missionária.

Cardeal Robert Prevost e Papa Francisco
Cardeal Robert Prevost e Papa Francisco no Consistório de 30 de setembro de 2023 | Foto: Vatican Media

Além de Francisco, Leão tem reforçado a continuidade com os demais predecessores, inclusive com o convite a renovar a “plena adesão” ao caminho percorrido pela Igreja “na esteira do Concílio Vaticano II”, logo no início do pontificado. Mais recentemente, as catequeses sobre o Concílio Vaticano II conduzem os fiéis a revisitarem as propostas pastorais daquele grande momento de renovação.

Caminhar juntos

Expressão que traduz a sinodalidade, o chamado a caminhar juntos foi lembrado por Leão a partir de seu carisma agostiniano:

“Sou filho de Santo Agostinho, um agostiniano, que disse: ‘com vocês sou cristão e para vocês bispo’. Nesse sentido, podemos todos caminhar juntos rumo àquela pátria que Deus nos preparou”.

Também ao lembrar o Papa Francisco, o Papa Leão XIV chamou a todos para seguirem em frente juntos “sem medo, unidos de mãos dadas com Deus e entre nós”.

O convite também se traduziu na relação com os cardeais, com os quais chamou a caminhar junto “como Igreja unida, sempre buscando a paz, a justiça, buscando sempre trabalhar como homens e mulheres fiéis a Jesus Cristo, sem medo, para proclamar o Evangelho, para sermos missionários”.

Em dois consistórios – e caminhando para o terceiro, em junho, – o Papa tem se dedicado a ouvir cardeais:

“Estou aqui para ouvir. Como aprendemos durante as duas Assembleias do Sínodo dos Bispos de 2023 e 2024, a dinâmica sinodal implica, por excelência, ouvir. Cada momento desse tipo é uma oportunidade para aprofundar nosso apreço comum pela sinodalidade”, disse o Papa aos cardeais no Consistório de janeiro deste ano.

Papa e cardeais reunidos em grupo
Papa e cardeais reunidos em grupo durante o Consistório de janeiro de 2026 | Foto: Vatican Media

Uma Igreja que constrói pontes e dialoga

Ao desejar a paz em seu primeiro discurso, o Papa convidou a todos a trabalharem e ajudarem a “construir pontes, com o diálogo, com o encontro, unindo-nos a todos para sermos um só povo, sempre em paz”.

Também este foi o convite à Igreja de Roma: “Devemos buscar juntos como ser uma Igreja missionária, uma Igreja que constrói pontes, dialoga, sempre aberta para receber como esta praça com os braços abertos a todos aqueles que precisam da nossa caridade, da nossa presença, do diálogo e do amor”.

E o diálogo tem sido sinal claro no pontificado de Leão, seja no interno da Igreja, seja nas relações ecumênicas e na proposta para a paz diante dos conflitos e guerras espalhados pelo mundo.

No campo ecumênico, o Papa Leão XIV recitou com outros líderes cristãos o Credo Niceno-Constantinopolitano nas celebrações dos 1700 anos do Concílio de Niceia, na Turquia. Na mesma oportunidade, assinou uma Declaração Conjunta com o Patriarca Bartolomeu I sobre os caminhos da unidade dos cristãos.

Papa Leão e o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I | Foto: Vatican Media

Olhar para o povo fiel das periferias

Ao lembrar da diocese onde foi missionário e bispo, em Chiclayo, no Peru, o Papa Leão XIV demonstrou o seu olhar atento às periferias, especialmente ao se dirigir aos fiéis peruanos falando em espanhol.

Ele lembrou especialmente do “povo fiel” que “acompanhou seu bispo, compartilhou sua fé e deu muito, muito para continuar sendo Igreja fiel de Jesus Cristo”.

Essas palavras se traduziram especialmente em sua viagem à África, no último mês, onde esteve para “encontrar e encorajar o povo de Deus” e levar “uma mensagem de paz num momento histórico marcado por guerras e por graves e frequentes violações do direito internacional”.

Para o Papa, a visita aos cinco países africanos foi “uma oportunidade para os povos africanos fazerem ouvir as suas vozes, expressarem a alegria de serem povo de Deus e a sua esperança num futuro melhor, um futuro digno para cada um de nós e para todos”.

Leão agradeceu ao Senhor pelo que o povo africano o presenteou: “uma riqueza inestimável para o meu coração e para o meu ministério”.

Uma Igreja sinodal

“Queremos ser uma Igreja sinodal”, disse o Papa em seu primeiro discurso. E a continuidade dos processos iniciados com o Sínodo sobre a Sinodalidade, especialmente com os encontros realizados em Roma, as pistas de recepção das indicações sinodais e com o processo de diálogo que levará toda a Igreja à Assembleia Eclesial de outubro de 2028.

Dom Evandro Luís Braun, último bispo nomeado pelo Papa Francisco para o Brasil, afirmou que o Papa Leão faz com que o sínodo convocado pelo Papa Francisco aconteça na Igreja.

Papa Leão recebe os membros das equipes sinodais durante o Jubileu 2025 | Foto: Secretaria do Sínodo

Sob a intercessão e o amor de Maria

Eleito no dia da Súplica de Nossa Senhora de Pompeia, o Papa Leão XIV lembrou da proximidade da Mãe de Jesus, que “quer sempre caminhar conosco, estar próxima, ajudar-nos com sua intercessão e seu amor”.

Nos primeiros dias após a eleição, Leão visitou o Santuário de Nossa Senhora do Bom Conselho, na cidade de Genazzano, nos arredores de Roma. Depois, dirigiu-se à Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, onde rezou diante do túmulo do Papa Francisco e do ícone da Virgem, Salus Populi Romani.

Nesta sexta-feira, um ano após a eleição, o Papa visitou o Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompéia, na Itália. Para ele, um “dia maravilhoso”.

“Quantas bênçãos! Sinto-me o primeiro abençoado por poder vir aqui, ao santuário, no dia da súplica e deste aniversário”.

Um momento da celebração da Santa Missa
Santa Missa na visita do Papa Leão XIV a Pompeia | Foto: Vatican Media

Luiz Lopes Jr.

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