As novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) foram aprovadas durante a 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizada nas últimas semanas, em Aparecida (SP). O texto dessas orientações e indicações pastorais para animar a missão da Igreja em suas dioceses e comunidades é fruto de um processo iniciado em 2022 e marcado por ampla escuta, participação e discernimento em perspectiva sinodal.
Confira abaixo os sete passos que marcaram o caminho da atualização das diretrizes:
1. A Carta dos bispos à Igreja no Brasil
Em setembro de 2022, ao final da etapa presencial da 59ª Assembleia Geral da CNBB, os bispos enviaram uma carta na qual explicavam e davam início ao processo de construção das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. O itinerário ali apresentado mantinha as diretrizes em vigor desde 2019 e propunha “prolongar o exercício da escuta”, a “vivência de um tempo de discernimento” e a “recepção e aprofundamento das indicações do Documento Final do Sínodo”.
2. Tempo de discernimento
O ano de 2023 foi marcado pelo discernimento. A ideia é que esse exercício se desdobrasse “na compreensão de conceitos presentes nas Diretrizes, na apresentação concreta de metodologias e indicações pastorais, à luz das Constituições principais do Concílio Vaticano II”.
Nesse período, o processo de atualização das diretrizes avançou para o discernimento pastoral, com reflexões sobre os impactos da pandemia, as transformações culturais e digitais e desafios como a pobreza, a polarização e o enfraquecimento do senso de pertença eclesial. Nesse contexto, ganharam força as palavras-chave comunhão, participação e missão, que passaram a orientar a elaboração do texto.
3. Encorajamento, consolidação e aprofundamento
O ano de 2024 foi marcado pelo aprofundamento do texto até então elaborado. Durante a 61ª Assembleia Geral da CNBB, os bispos trabalharam sobre um instrumento de trabalho que sistematizou as contribuições recebidas até o momento. A metodologia incluiu a “conversa no Espírito”, com grupos de discernimento voltados à escuta dos sinais dos tempos e à definição de caminhos pastorais.
A imagem da “tenda alargada” tornou-se inspiração central, expressando o desejo de uma Igreja mais acolhedora, aberta e missionária. O processo também buscou integrar as conclusões do Sínodo e dialogar com questões emergentes, como o impacto das novas tecnologias, a crise climática e o crescimento do individualismo.
Em junho daquele ano, o Papa Francisco enviou uma carta confirmando e animando os bispos no processo de elaboração das diretrizes. O pontífice encorajou o episcopado brasileiro confiando ao Espírito Santo a iluminação das mentes e corações, “guiando-os na formulação de orientações que possam responder aos desafios contemporâneos e levar a Palavra de Deus a todos os cantos do país”.
4. Nova rota definida, passando pelas dioceses
Chegado o ano de 2025, a expectativa era de votação do texto durante a Assembleia Geral, marcada para o período de 30 de abril a 9 de maio. Entretanto, com a morte do Papa Francisco, os bispos decidiram pelo adiamento da Assembleia, passando a votação para este ano de 2026.
Durante o Conselho Permanente de julho de 2025, os bispos aprovaram a sugestão da equipe de redação das diretrizes de o texto ser usado ainda como Instrumento Laboris (Instrumento de Trabalho) por dioceses e organismos eclesiais até o final do ano. Esse contato prévio das dioceses também teve a intenção de que, após leitura detalhada, fossem enviadas à equipe de redação novas observações para serem incorporadas ao texto.
5. Uma nova ferramenta para o trabalho
Com o contato das dioceses e de organismos com o instrumento de trabalho, a equipe de redação acolheu as sugestões enviadas e as incorporou ao texto junto com as inspirações vindas do pontificado do Papa Leão XIV e as indicações de implementação do processo do Sínodo sobre a Sinodalidade.
Em janeiro de 2026, após receber as contribuições das dioceses, a comissão de redação das Diretrizes enviou a todos os bispos a 23ª versão do texto, consolidando o caminho construído de forma colegiada, marcado pela escuta, pela corresponsabilidade e pelo método sinodal como eixo estruturante. A versão final do texto foi entregue ao Conselho Permanente no mês de março.
6. Amadurecimento do texto das Diretrizes
Durante a 62ª Assembleia Geral da CNBB, os bispos debruçaram-se sobre o texto e fizeram novas contribuições para a equipe de redação. Foram mais de 1500 emendas feitas durante a assembleia, as quais foram analisadas pela equipe de redação.
“Essa equipe trabalhou de uma forma extraordinária e chegamos a um texto que, imagino, reflete as necessidades da obra da evangelização hoje no território”, destacou o arcebispo de Porto Alegre (RS) e presidente da CNBB, cardeal Jaime Spengler.
Em grupos divididos por regionais, os bispos apresentaram contribuições ao texto das DGAE
Dom Leomar exibe grande número de contribuições recebidas pela equipe de redação
7. A tenda do encontro e a recepção do Sínodo
O texto foi aprovado na quinta-feira, dia 23 de abril. Durante a coletiva de imprensa realizada na última sexta-feira, 24 de abril, dom Jaime Spengler apresentou a estrutura do texto das diretrizes, aprovado no dia anterior com acolhida do resultado expressivo da votação com aplausos de pé no plenário da Assembleia.
O texto propõe para a Igreja no Brasil a imagem da tenda do encontro, assim como no Sínodo sobre a Sinodalidade, como inspiração para a acolhida de todos, a possibilidade de alargamento e da itinerância na missão.
“As orientações das diretrizes estão em grande sintonia com aquilo que hoje a Igreja no seu todo pede do seu povo, da nossa gente”, pontuou dom Jaime.
Conheça a estrutura do documento das DGAE que terão validade de 2026 a 2032:
- 1º Capítulo: A Igreja: tenda do encontro
A Igreja é entendida como tenda do encontro. A tenda acolhe todos, ela pode ser, sempre de novo alargada, de acordo com as necessidades.
- 2º Capítulo: A escuta dos sinais
É feita a escuta tanto dos sinais dos tempos, que dizem respeito à realidade atual do mundo, quanto os sinais de esperança e da ação do Espírito Santo que podem ser vistos nas comunidades de todo o país.
- 3º Capítulo: Discernimento para uma Igreja Sinodal
Aqui entram os aspectos fundamentais que já foram apresentados durante o Sínodo dos Bispos em 2023 e 2024, os princípios de comunhão, participação e missão.
- 4º Capítulo: Povo de Deus em missão
Todos nós somos chamados a testemunhar e anunciar o Evangelho (laicato, ministros leigos e leigas, famílias, crianças e adolescentes, jovens, mulheres, pessoas com deficiência e neurodivergência, idosos, vida consagrada, ministros ordenados e povos indígenas).
- 5º Capítulo: Caminhos da Missão
Indicações sobre “os modos concretos” de efetivar as propostas das Diretrizes da Ação Evangelizadora, não apenas com ações, mas que todos encontrem na tenda “lugar, sentido e envio na missão”. Nesse sentido, os caminhos dizem respeito à animação bíblica da Pastoral; à iniciação à vida cristã, à liturgia e à piedade popular; a serviço à vida plena para todos; à evangélica opção preferencial pelos pobres; à formação, defesa e cuidado da vida e à ecologia integral.
- 6º Capítulo: Compromissos sinodais
Com o compromisso de que as diretrizes tivessem em sintonia com as decisões do Sínodo, o texto foi firmado como o principal instrumento de implementação do Sínodo sobre a Sinodalidade na realidade do Brasil. Assim, o último capítulo contém uma atitude considerada por dom Jaime como o “coração do documento final do Sínodo 2023”: a conversão.
Assim, os compromissos sinodais partem da conversão em três âmbitos: das relações, dos processos e dos vínculos.
Já conversão das relaçõesestão presentes a questão da proteção de menores e da comunicação, por exemplo.
Já conversão dos processosos bispos abordam os espaços de promoção da sinodalidade, como as assembleias diocesanas, os conselhos pastorais, os conselhos econômicos e a questão do Dízimo.
Por fim, a conversão dos vínculos diz respeito aos organismos do povo de Deus, aos organismos e projetos missionários, ao Pacto Global da Educação lançado pelo Papa Francisco e à questão do ecumenismo e o diálogo inter-religioso.
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#07 CNBB PodCast – 62ª AG CNBB – As novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora
Luiz Lopes Jr



